
Uma matéria publicada em um perfil regional de São Borja (RS) levantou críticas à construção de uma quadra pública de pádel na Praça Tricentenário, argumentando que o esporte seria elitizado e que os recursos públicos deveriam priorizar outras modalidades, como o futebol amador. Mas será que esse raciocínio faz sentido?
No Super Padel, acreditamos que o debate é importante, principalmente quando se trata do uso de dinheiro público, mas também que ele precisa ser feito com responsabilidade, informação e sem cair em velhos estigmas. Então decidimos levantar algumas questões sobre o assunto.
O pádel é elitizado?
Essa é uma frase que se repete com frequência, mas que não resiste a uma análise mais profunda. O pádel é praticado hoje por milhares de pessoas no Brasil, inclusive em cidades do interior, como São Borja. De fato, os equipamentos podem ter preços elevados — assim como uma chuteira de marca também pode custar mais de R$ 1.000. Mas o que realmente torna um esporte elitizado não é o seu equipamento em si, mas a falta de acesso público a ele.
E é exatamente isso que a quadra pública de São Borja pode resolver: oferecer acesso gratuito ao pádel, com empréstimo de raquetes e aulas abertas à comunidade. Essa é a essência da democratização.
“Mas o futebol é mais popular”
Sem dúvida. O futebol é o esporte mais popular do Brasil, e isso não está em debate. Mas a popularidade de uma modalidade não deve ser usada como argumento para impedir o desenvolvimento de outras.
Inclusive, a maior parte dos comentários feitos na publicação original vai na direção oposta: quanto mais modalidades a população tiver à disposição, maiores são as chances de crianças e jovens se encontrarem no esporte, com impactos diretos na saúde, no lazer e até na educação.
O pádel não se destina a competir com o futebol, mas pode somar, e muito.
Oportunidade de ascensão social
Outro ponto importante negligenciado pela crítica original é que o pádel oferece, sim, oportunidades de ascensão social. Não estamos falando apenas de atletas profissionais — mas especialmente da formação de professores, técnicos, árbitros e organizadores de eventos.
Hoje, um bom professor de pádel pode ganhar valores entre R$ 4 mil e R$ 10 mil mensais, dependendo da sua atuação e da cidade. Isso representa uma real oportunidade profissional, especialmente se o acesso ao esporte for incentivado desde a base.
E onde deveria começar essa base? Justamente em espaços públicos, com professores treinados e quadras abertas à população.
E o custo da quadra?
O valor apontado na matéria foi de R$ 200 mil. Não cabe a nós julgar se o valor é justo para a construção de uma quadra de alvenaria, para isso há órgãos responsáveis pela fiscalização do uso do dinheiro público. Uma informação que vale ressaltar, segundo um dos comentários na publicação, o recurso teria vindo de uma emenda parlamentar específica para a construção da quadra, ou seja, não teria sido retirado de outra área crítica, como saúde ou educação.
Além disso, uma quadra de pádel construída com alvenaria, iluminação e estrutura durável é um investimento de longo prazo, com manutenção simples e baixo custo futuro. E se for bem gerida, pode beneficiar centenas de pessoas mensalmente, com custo proporcional menor do que muitas outras obras esportivas.
Um ótimo exemplo vem do interior de São Paulo: o projeto social Padel Rinópolis tem transformado a realidade da cidade por meio do ensino gratuito da modalidade para crianças. O impacto foi tão positivo que o projeto conquistou investimentos para a construção de duas quadras públicas, consolidando o pádel como ferramenta de inclusão social e desenvolvimento local. Isso mostra que, com visão e gestão, o esporte pode ir muito além do rótulo de “elitizado” e se tornar um verdadeiro instrumento de transformação.
A crítica que vale a pena fazer
Sim, é válido cobrar melhorias nos campos de futebol da cidade. É justo pedir iluminação, vestiários e gramado de qualidade. Mas isso não significa que outras modalidades devam ser ignoradas ou atacadas.
A crítica justa é aquela que cobra mais esporte para todos, não a que tenta tirar de um para beneficiar outro.
Chamar a construção de uma quadra de pádel de “desperdício” ou “elitismo” é ignorar o contexto. Ao contrário: esse tipo de investimento é o que permite que um esporte considerado caro se torne, de fato, acessível a todos.
Defendemos que o pádel seja cada vez mais público, mais inclusivo e mais presente nas cidades brasileiras. Mas também defendemos que isso aconteça com responsabilidade, respeitando a realidade de cada município e garantindo que todas as modalidades esportivas tenham seu espaço.
Maycon Henschel, da redação.
