
O Super Padel sempre buscou contribuir para o crescimento e a valorização do pádel brasileiro. Nosso olhar é, por natureza, voltado ao positivo: às conquistas, ao desenvolvimento técnico e à evolução do esporte no país. Quem nos acompanha há algum tempo sabe disso. Mas há situações que, pela sua gravidade e impacto humano, precisam ser discutidas com transparência e responsabilidade. O desabafo do jovem atleta Ulisses Gianello, publicado nas redes sociais na última semana, é uma dessas situações.
O jovem atleta da seleção brasileira de pádel compartilhou recentemente nas redes sociais sua experiência durante o Mundial de Menores, levantando um importante questionamento sobre comunicação e cuidado com adolescentes que representam o país.
Ocupando atualmente a primeira posição do ranking nacional sub-16 da COBRAPA, Ulisses foi convocado para representar o Brasil no XV Mundial de Menores, disputado na Espanha, porém na categoria sub-18, acima da sua faixa etária. Apesar da convocação e de toda a preparação, o atleta não entrou em quadra em nenhuma partida. Segundo a família, nenhuma justificativa oficial foi apresentada pela comissão técnica ou pela COBRAPA, mesmo após repetidos contatos em busca de explicações.
Esforço, investimento e silêncio
A convocação representava o ponto alto de uma trajetória construída com dedicação e sacrifício. De acordo com relatos dos familiares, foram investidos mais de R$ 80 mil ao longo da temporada em treinamentos, deslocamentos, competições e outras despesas necessárias para correr o circuito, somar pontos e participar dos treinos oficiais de seleção. Após a convocação, mais gastos. A viagem à Espanha teria custado aproximadamente mais R$ 25 mil, arcados pela própria família e por patrocinadores. Segundo a família, a COBRAPA não cobre a maior parte dos custos da viagem, e os próprios atletas pagam inclusive a taxa de inscrição na competição por duplas.
O sistema atual faz com que jovens convocados precisem buscar patrocínios e apoio financeiro para representar o país. Neste contexto, a família se queixa da ausência de respostas, e afirma que quando um atleta faz todo esse esforço, é convocado e não joga, a frustração não deveria ser agravada pelo desamparo institucional.
“Por que fui convocado, se não jogaria?”
Em seu desabafo, Ulisses relata não entender o motivo de ter sido convocado fora de sua categoria e, principalmente, não ter sido colocado em quadra. Segundo o atleta e sua família, mensagens enviadas ao técnico responsável durante o torneio não foram respondidas, e a única explicação ouvida teria sido a suposta falta de confiança no aspecto psicológico do jogador. Ocorre que, segundo o próprio atleta, nenhuma orientação nesse sentido havia sido dada durante o ano, nem pelos técnicos nem pela psicóloga da seleção, com quem ele afirma ter tido contato anterior por iniciativa própria.
Ulisses afirma que chegou ao Mundial em plena forma física e mental, com treinos intensificados e acompanhamento nutricional. “Fiz tudo o que estava ao meu alcance para representar o Brasil da melhor forma possível”, disse à reportagem. Apesar disso, ele permaneceu no banco durante toda a competição, inclusive em partidas em que, segundo ele, outros atletas relataram desconforto físico.
Impacto emocional e risco de afastamento
O caso ganha contornos ainda mais sérios porque Ulisses completou 16 anos durante o Mundial, e estava em um país estrangeiro, longe da família, sob responsabilidade da entidade. Segundo os familiares, o episódio causou grande impacto emocional no atleta e na família, que precisaram lidar com questionamentos de amigos, colegas e patrocinadores sem saber o que responder. “Foi muito difícil explicar o que estava acontecendo, porque nem nós sabíamos, e ainda não sabemos.”, relatou o pai, Sandro Gianello.
Em sua publicação, Ulisses demonstrou frustração profunda e chegou a cogitar a possibilidade de abandonar o pádel, um alerta sério sobre como situações mal conduzidas podem afetar a motivação e o futuro de jovens talentos.
O desabafo público de Ulisses, em tom de frustração mas também com certa maturidade, expõe uma preocupação que vai além de uma decisão técnica: o modo como menores de idade estão sendo tratados em delegações oficiais.
Ulisses tem uma estrutura familiar sólida, que o amparou após o episódio. Mas nem todos os jovens atletas têm o mesmo suporte, e uma experiência negativa como essa pode gerar traumas duradouros ou até afastar talentos promissores do esporte.
Critérios técnicos e questionamentos
A COBRAPA adota critérios de ranking para convocações aos treinos fechados, realizados ao longo do ano, e critérios técnicos para a formação final das equipes que representam o país. O questionamento, neste caso, não recai sobre a autonomia técnica da comissão (garantida por regulamentação própria), mas sobre a falta de clareza e de diálogo — especialmente quando as decisões afetam adolescentes que dedicam tempo, dinheiro e energia ao sonho de defender o Brasil.
Mais do que rever critérios, o momento pede reflexão sobre a forma de comunicação e o cuidado humano com jovens que representam o país. O pádel brasileiro cresce em visibilidade e profissionalismo, e isso exige o mesmo amadurecimento nas relações institucionais. Mais do que medalhas, é a confiança dos jovens no esporte que precisa ser protegida.
O que diz a COBRAPA
Procurada pela reportagem, a COBRAPA informou, por meio de sua Diretora de Relações Institucionais, que publicaria uma nota oficial no site da Confederação sobre o referido tema. Posteriormente a nota foi publicada, afirmando que “as convocações para a Seleção Brasileira, em qualquer categoria, têm como propósito não apenas a participação em quadra, mas a vivência completa da experiência de integrar uma equipe oficial do Brasil em competição internacional.“
A nota afirma ainda que “Não há, em nenhuma instância técnica ou regulamentar, qualquer regra que determine a obrigatoriedade de participação em jogos por parte de todos os convocados” e que “reconhece e valoriza cada atleta que compõe uma delegação, dentro e fora da quadra, pois uma equipe se constrói também com apoio, disciplina e espírito de grupo.“
A nota completa pode ser encontrada no site cobrapa.com.br. Clique aqui para acessar.
Maycon Henschel, da redação.

Confederação amadora, na verdade.
É triste, mas é a realidade do pádel brasileiro há no mínimo duas décadas, não somente nas convocações de atletas mas também nas escolhas de sedes para etapas do Brasileiro, treinos das seleções e por aí vai.
Tudo em nome do companheirismo, sem profissionalismo algum.