Em meio ao anúncio do encerramento da sua carreira competitiva, casamento, lua de mel e o período intenso de festas de fim de ano, Lucas Cunha reservou um tempo para atender o Super Padel e conceder esta entrevista. As respostas chegaram após dias de expectativa da nossa equipe, que aguardava o momento certo para registrar, com calma e profundidade, este depoimento que marca o encerramento de um ciclo e o início de uma nova fase na trajetória de um dos nomes mais marcantes da história recente do pádel brasileiro.
Confira a íntegra da entrevista:
Lucas, como foi o teu primeiro contato com o pádel e quando você percebeu que esse esporte poderia se tornar uma carreira?
Meu início no pádel foi em Porto Alegre. Eu joguei tênis dos oito aos dez anos no Teresópolis Tênis Clube. Quando as quadras entraram em reforma, havia uma quadra de pádel de alvenaria no clube e meu pai migrou para o pádel. Eu estava sempre com ele e migrei junto, de forma totalmente casual. A partir daí não parei mais. Comecei a treinar, competir e as coisas foram acontecendo naturalmente.
Quem foram as pessoas mais importantes na tua formação nessa fase inicial?
Sem dúvida nenhuma meu pai foi a pessoa mais importante. Ele sempre me incentivou, me levou para treinar, me acompanhou em competições e me manteve motivado. Minha mãe também teve papel fundamental, dando todo o suporte logístico e emocional. Além deles, todos os professores que tive desde os dez anos até o momento de ir para fora do país tiveram participação importante, mas meus pais foram essenciais para eu permanecer e seguir motivado.
Você passou por todas as categorias de menores da Seleção Brasileira. O que significava vestir a camisa do Brasil ao longo dessas categorias?
Eu tenho memórias maravilhosas dessa fase. Ganhei um Pan-Americano e dois Mundiais de menores, vivi momentos muito marcantes com amigos que hoje são padrinhos do meu casamento. Os títulos são importantes e ficam para sempre, mas o mais relevante foi a formação como pessoa, os valores, a disciplina, o respeito ao professor, aos companheiros e ao processo.
Que lembranças desses títulos mais te marcaram?
Além dos títulos em si, me marcou muito a convivência. Viagens longas, concentrações, treinos em grupo, amizades que mantenho até hoje. A gente cresceu junto, se alimentou competitivamente e criou laços muito fortes que carregamos até hoje.
Como essa base vitoriosa te preparou para a vida profissional?
Ela me deu alicerce. Mais do que os títulos, me ensinou a lidar com derrotas, frustrações, responsabilidades e a entender que resultados de base não garantem futuro, mas formam pessoas. Isso me preparou para a vida e para a carreira profissional.
Com apenas 18 anos você se mudou para a Espanha. Como foi tomar uma decisão tão grande tão cedo?
Foi uma decisão rápida, quase sem planejamento. Eu tinha 19 anos, era mais inconsequente no bom sentido. Pensei que não tinha nada a perder e que, se desse errado, eu poderia voltar. Em cerca de 15 dias eu juntei dinheiro, comprei passagem e fui. Cheguei sem falar espanhol, fui morar na universidade, consegui bolsa e comecei minha vida lá.
Foram dez anos competindo na Europa. Que aprendizados essa década trouxe para o teu jogo e para a tua maturidade?
Foram fundamentais. Eu amadureci muito rápido, tive que aprender a sobreviver, a construir credibilidade, a me adaptar a outra cultura e a conviver com grandes treinadores e jogadores. Isso moldou minha carreira e minha forma de trabalhar até hoje.
Quais foram os maiores desafios dessa fase fora do Brasil?
A adaptação cultural, a distância da família, aprender a língua, entender como se comportar e como construir respeito no mercado. Isso exigiu muito amadurecimento e responsabilidade.
Em 2021 você retorna ao Brasil e passa a integrar a Flores Padel. O que te motivou a aceitar esse novo caminho naquele momento?
Eu já sentia que era o momento de voltar, estar mais perto da família e participar do crescimento do pádel no Brasil. A Flores Padel surgiu como um projeto que me permitia aplicar tudo que aprendi fora e ajudar na formação de professores e jogadores.
Como você enxerga a importância desse projeto para o pádel brasileiro e para a tua trajetória?
Vejo como algo fundamental. A formação de professores é a base do crescimento saudável dos clubes e do esporte. Professores qualificados geram alunos mais engajados, clubes mais fortes e um ecossistema mais sustentável.
Já de volta ao Brasil, você disputou muitas etapas do A1 Padel. Que papel essas competições tiveram na tua retomada competitiva?
O A1 Padel foi fundamental para me dar visibilidade novamente no Brasil. Me ajudou a voltar ao alto nível, a conseguir patrocínios, melhorar minha rotina de treinos e me recolocar no cenário competitivo.
O Brasil Padel Tour tem sido uma parte central da sua carreira nos últimos anos. Como você enxerga a importância deste circuito no cenário nacional?
O BPT é essencial para levar o pádel profissional para várias cidades do Brasil, aproximar o público dos atletas, motivar crianças e movimentar os clubes. Ele tem um papel enorme no crescimento do esporte no país.
Em 2024 e 2025, ao lado do Matheus, você encerrou as temporadas como número 1 do Brasil no BPT. Que fatores foram determinantes para alcançar esse nível tão alto de consistência?
Constância, entrega diária, respeito, adaptação e trabalho em equipe. Sempre acreditamos que ninguém erra de propósito e que o caminho era resolver os problemas juntos e evoluir constantemente.
Você já estava lidando com problemas físicos nessa reta final?
Sim. Eu já vinha com uma lesão no cotovelo direito há meses, com rompimentos de tendões, muita fisioterapia e medicação. Consegui chegar competitivo até o fim da temporada, mas a lesão já estava presente.
Chegando ao fim da temporada, você tomou uma decisão importante sobre sua continuidade no circuito profissional. Qual foi essa decisão?
Eu anunciei que não vou mais competir profissionalmente no BPT. É uma decisão definitiva, não é uma pausa.
Essa decisão vinha sendo amadurecida há algum tempo?
Sim. Eu já vinha refletindo sobre isso, sentindo que estava em um novo momento de vida e que meus pensamentos e energia estavam cada vez mais voltados para novos projetos.
Você considera esse momento uma aposentadoria do circuito profissional ou um afastamento parcial?
Eu considero uma aposentadoria definitiva do circuito profissional. Eu não consigo fazer nada pela metade. Para competir eu precisaria estar 100% focado, e agora quero dedicar minha energia integralmente aos novos projetos.
Quais fatores pesaram mais nessa escolha?
Foi uma soma de fatores, mas principalmente o momento de vida, novos projetos e o desejo de fazer uma transição consciente, com cabeça tranquila e coração em paz. A lesão somou, mas não foi o fator determinante.
Existe chance de voltar a disputar torneios pontuais no futuro?
Não. Eu não me vejo voltando para competir, nem de forma pontual, nem em seleção. Agora o foco é total nos novos projetos.
Quais projetos você pretende priorizar a partir de agora?
Vou focar em clínicas, cursos presenciais e online, formação de professores, desenvolvimento de marcas, projetos em clubes, podcast, redes sociais e novas iniciativas ligadas ao pádel.
A Flores Padel segue sendo parte central do teu dia a dia?
Sim. A Flores Padel segue como um dos pilares da minha atuação, com expansão de cursos, formação de professores e novos formatos de entrega de conteúdo.
Ao olhar para toda a tua trajetória, o que mais te orgulha?
Mais do que os títulos, me orgulho de ter respeitado o esporte, as pessoas e o processo, de ter construído uma carreira com valores e credibilidade.
Qual mensagem você deixa para quem acompanhou tua trajetória até aqui?
Minha mensagem é de gratidão. Agradeço a todos que estiveram comigo, família, amigos, patrocinadores, clubes e torcedores. O pádel segue sendo minha paixão e eu sigo à disposição para contribuir de novas formas.
Maycon Henschel, para o Super Padel.
