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Portal Super Padel > Aprovação > Neki Berwig: do abandono precoce do tênis ao topo do mundo no pádel
Aprovação

Neki Berwig: do abandono precoce do tênis ao topo do mundo no pádel

Published: agosto 8, 2026
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20 Min lido

Em entrevista exclusiva, a ex-número 1 do mundo por cinco temporadas, campeã mundial e treinadora de algumas das principais atletas do circuito fala ao Super Padel sobre sua trajetória, as escolhas que mudaram sua carreira e sua visão sobre a formação de jogadores.

Poucas trajetórias no pádel brasileiro atravessam tantas fases do esporte quanto a de Neki Berwig. Gaúcha de Lajeado, formada em Educação Física pela UFRGS, ela começou no tênis ainda criança e chegou a ocupar a sétima posição do ranking brasileiro em sua categoria. Aos 16 anos, porém, abandonou as competições e tomou um caminho que, naquele momento, parecia afastá-la definitivamente do esporte de alto rendimento.

O que parecia ser o fim de uma trajetória esportiva acabou se transformando no início de uma história ainda maior. Anos depois, um reencontro com Elizabeth D’Andrea colocou o pádel em seu caminho. No final de 2000, Neki deixou o Brasil rumo à Espanha e, pouco tempo depois, passou a competir entre as melhores do mundo. Ao lado de Icíar Montes, chegou ao topo do circuito e conquistou o Campeonato Mundial de 2002. Foi número 1 do mundo em cinco temporadas: 2002, 2005, 2006, 2007 e 2008.

Depois de encerrar a carreira como jogadora, Neki iniciou uma nova etapa como treinadora de atletas de elite e formadora de jogadores, construindo uma visão do pádel que vai muito além da técnica. Hoje, depois de mais de duas décadas vivendo o esporte na Espanha, reúne experiências como jogadora, campeã mundial, número 1 do mundo e treinadora. É justamente esse conhecimento acumulado ao longo de sua trajetória que, em breve, chegará aos leitores da Revista Super Padel, onde Neki será nossa colunista de técnica e tática, trazendo conselhos, análises e orientações para jogadores que querem entender melhor o jogo e evoluir dentro da quadra.

Acesso Rápido
  • Você começou no tênis ainda criança e chegou a competir em alto nível. O que fez você abandonar as competições aos 16 anos e como o pádel acabou entrando na sua vida?
  • Em 2000, você deixou o Brasil para tentar a carreira na Espanha. O que significou tomar essa decisão naquele momento da sua vida?
  • A parceria com Icíar Montes levou vocês ao topo do circuito e ao título mundial de 2002. O que tornou aquela dupla tão especial?
  • Depois de encerrar a carreira como jogadora, você construiu uma segunda trajetória como treinadora, trabalhando com algumas das melhores atletas do mundo. O que essa passagem mudou na sua forma de enxergar o pádel?
  • Você sempre trabalhou também com a base e com jogadores amadores. O que um treinador consegue construir com alguém que tem mais vontade do que talento?
  • Existe uma ideia entre muitos amadores de que um treinamento técnico, tático, físico e mental mais estruturado é algo reservado aos profissionais. O que o amador pode aprender com a preparação de um atleta de alto rendimento?
  • Depois de mais de duas décadas na Espanha, como você enxerga o pádel brasileiro de hoje e onde acredita que o Brasil ainda precisa evoluir?
  • Depois de uma vida dedicada ao pádel como jogadora, campeã mundial, treinadora e formadora, o que motiva você hoje dentro do esporte? E que legado gostaria de deixar?

Nesta entrevista, Neki revisita os principais momentos de sua carreira, fala sobre as escolhas que mudaram sua vida e compartilha a visão que construiu ao longo de mais de duas décadas dedicadas ao pádel.


Você começou no tênis ainda criança e chegou a competir em alto nível. O que fez você abandonar as competições aos 16 anos e como o pádel acabou entrando na sua vida?

Quando deixei de jogar tênis, aos 16 anos, fui um caso típico de abandono precoce no esporte. Como já contei outras vezes, eu tinha talento. Aos 15 anos, fui a sétima colocada do Brasil na minha categoria e conseguia competir de igual para igual com as melhores jogadoras do país. Muitas vezes enfrentava a quarta colocada do ranking brasileiro, que era a minha principal rival no Rio Grande do Sul, e acontecia algo que marcou muito a minha carreira: eu chegava a estar vencendo por 6/1 e 4/1, mas não conseguia fechar a partida.

Hoje entendo que o que me faltou não foi técnica nem capacidade física. Faltou apoio emocional.

Foto: Acervo pessoal Neki Berwig

Hoje entendo que o que me faltou não foi técnica nem capacidade física. Faltou apoio emocional. Naquela época, praticamente não se falava de preparação mental, e eu não tinha as ferramentas necessárias para lidar com a pressão da competição.

Depois que abandonei as competições, voltei para a minha cidade e comecei a dar aulas de tênis. Mais tarde, entrei na Universidade Federal do Rio Grande do Sul para cursar Educação Física e, para minha surpresa, reencontrei a Elizabeth. Ela era professora de tênis na universidade.

Alguns anos depois, eu já fazia uma segunda graduação, em Direito, e trabalhava vendendo sapatos na loja Datelli, no Shopping Praia de Belas, em Porto Alegre. Foi uma experiência que me ensinou muito sobre atendimento ao público e sobre a vida, mas, no fundo, eu sentia que aquele não era o meu lugar.

Quando já não aguentava mais trabalhar no shopping, tomei uma decisão.

Quando já não aguentava mais trabalhar no shopping, tomei uma decisão. Entrei em contato com a Elizabeth para perguntar se existia a possibilidade de voltar a dar aulas de tênis. Eu ainda carregava muitas feridas da competição e não tinha vontade de voltar a competir, mas percebi que ensinar era diferente. Era uma forma de voltar ao esporte por outro caminho.

Quando falei com a Beth, ela me respondeu algo que acabaria mudando completamente a minha vida.

Ela disse: “Claro, você pode dar aulas de tênis. Mas existe um esporte chamado pádel. Acho que você vai gostar.”

Naquele momento, eu não fazia ideia do impacto que aquela conversa teria na minha vida. Eu só queria voltar a trabalhar com o esporte. Não imaginava que o pádel acabaria se tornando a minha profissão, a minha paixão e o caminho que, anos mais tarde, me levaria a ser número 1 do mundo.

Em 2000, você deixou o Brasil para tentar a carreira na Espanha. O que significou tomar essa decisão naquele momento da sua vida?

Em setembro, voltei à Espanha porque fui convidada para disputar a Copa Presidente, uma competição realizada em homenagem ao então presidente da Espanha, José María Aznar. Era uma competição por equipes, Europa contra América. Nesse período, também disputei torneios ao lado de outra parceira, a argentina Mariana Pérez.

Foi durante essa segunda passagem pela Espanha, já no final de 2000, entre outubro e novembro, que aconteceu outro momento decisivo: a jogadora espanhola Araceli Montero convidou-me para jogar com ela.

Naquele momento, eu ainda não imaginava que cada convite estava abrindo uma nova porta e que, passo a passo, eu começava a construir uma carreira que mudaria completamente a minha vida.

Decidir ficar na Espanha não foi fácil. Muito pelo contrário.

Foto: Acervo pessoal Neki Berwig

A minha família vivia um dos momentos mais difíceis da nossa vida. A minha mãe tinha passado três meses internada e o seu estado de saúde era muito grave. Eu sabia que existia a possibilidade de perdê-la. O meu pai também estava muito doente, com um tumor na medula, e a situação dele era igualmente delicada.

Deixar a minha família, as pessoas que mais amo, foi provavelmente uma das decisões mais difíceis que já tomei.

Ao mesmo tempo, tinha uma forte intuição de que aquele era o caminho que eu precisava seguir. E o mais bonito é que, apesar de toda a dor daquele momento, a minha família me apoiou. A minha mãe foi a primeira a dizer: “Vai atrás do que é teu.”

A parceria com Icíar Montes levou vocês ao topo do circuito e ao título mundial de 2002. O que tornou aquela dupla tão especial?

Quando a Icíar decidiu apostar em mim, percebi que estava diante de um dos maiores desafios da minha carreira. Ela estava confiando em uma jogadora que tinha chegado havia pouco tempo ao circuito espanhol. Eu sabia que precisava estar à altura daquela confiança. Treinei muito, trabalhei muito e procurei evoluir todos os dias.

Foto: Acervo pessoal Neki Berwig

Dentro da quadra, nós nos complementávamos de uma forma muito natural. A Icíar jogava na esquerda e eu, por ser canhota, jogava na direita. Essa combinação funcionava muito bem.

Muita gente dizia que eu era a força da dupla, porque tinha um jogo muito agressivo e um remate potente. Mas acredito que a nossa verdadeira força não estava apenas nas características técnicas.

O que fazia a diferença era a forma como entendíamos o jogo.

O que fazia a diferença era a forma como entendíamos o jogo. Pensávamos o pádel de maneira muito parecida, competíamos com a mesma mentalidade, sabíamos lidar com a pressão e confiávamos plenamente uma na outra.

Naquele momento, eu não pensava na minha nacionalidade nem no fato de ser brasileira e estar tentando conquistar espaço num cenário dominado principalmente por espanholas e argentinas. Sinceramente, isso nunca foi o meu foco.

Nunca competi para representar um rótulo ou para quebrar barreiras por ser brasileira. Eu competia porque amava o jogo e porque queria ser, a cada dia, uma atleta melhor. O resto foi consequência do trabalho e da dedicação.

Depois de encerrar a carreira como jogadora, você construiu uma segunda trajetória como treinadora, trabalhando com algumas das melhores atletas do mundo. O que essa passagem mudou na sua forma de enxergar o pádel?

Depois de tantos anos treinando jogadoras de diferentes níveis, a minha forma de entender o ensino mudou completamente.

Acompanhar Patty Llaguno, Eli Amatriain e outras grandes jogadoras do circuito profissional fez com que eu compreendesse algo que nunca tinha percebido da mesma maneira quando era atleta.

Ver a Eli transformar-se numa das melhores jogadoras do mundo, chegar ao topo do ranking e conquistar o Campeonato do Mundo por duplas mostrou-me que o verdadeiro trabalho de um treinador não é apenas ensinar golpes. É saber construir um processo.

Foi aí que percebi que me tinha tornado uma formadora de pessoas, e não apenas uma treinadora de pádel. Curiosamente, foi como treinadora que comecei a dar verdadeiro valor ao que eu própria tinha conquistado como atleta.

Foi treinando outras pessoas que compreendi, de verdade, o valor da minha própria trajetória.

Quando terminei a minha carreira, não celebrava muito o fato de ter sido número 1 do mundo durante cinco anos. Parecia algo natural, como se simplesmente tivesse acontecido. Mas, ao viver todo o processo ao lado das minhas jogadoras, percebi o quanto é difícil chegar ao topo e, sobretudo, permanecer lá.

Foi treinando outras pessoas que compreendi, de verdade, o valor da minha própria trajetória.

Você sempre trabalhou também com a base e com jogadores amadores. O que um treinador consegue construir com alguém que tem mais vontade do que talento?

Sempre trabalhei e sempre gostei de trabalhar com a base e com jogadores amadores. Acredito, inclusive, que é com os jogadores amadores que o treinador realmente aprende a ensinar.

São pessoas que, muitas vezes, nunca tiveram uma formação adequada, que apresentam dificuldades de coordenação, de percepção do jogo ou simplesmente não sabem como executar determinado movimento. É aí que o treinador precisa ser criativo, persistente e determinado. Precisa encontrar diferentes formas de explicar, comunicar e adaptar o ensino a cada pessoa.

Nunca fiz distinção entre um atleta profissional e um jogador amador. Para mim, todos merecem o mesmo respeito, a mesma dedicação e a mesma paixão pelo ensino. O que mais me importa quando treino alguém não é o seu nível, mas a sua atitude.

Embora tenha treinado jogadoras de alto rendimento durante muitos anos, nunca deixei de trabalhar com atletas amadores. Para mim, uma coisa nunca substituiu a outra.

Foto: World Padel Tour

Acredito que um treinador pode ajudar a construir uma carreira muito sólida, mesmo quando o atleta não é considerado um talento extraordinário.

Ao longo da minha experiência, aprendi que nem todos os jogadores que chegaram ao número 1 do mundo eram, necessariamente, os mais talentosos da sua geração.

Muitos tinham qualidades naturais, é verdade. Mas o que realmente os diferenciava era a capacidade de trabalhar todos os dias, de aprender continuamente e de manter a disciplina durante muitos anos.

O talento abre portas, mas não garante uma carreira.

Por outro lado, já vi jogadores que talvez não fossem os mais talentosos, mas que tinham uma ética de trabalho extraordinária, uma enorme capacidade de aprendizagem e um compromisso absoluto com o processo.

Porque, no fim, as grandes carreiras não são construídas apenas pelo talento. São construídas pela soma de milhares de dias de trabalho bem feito.

Existe uma ideia entre muitos amadores de que um treinamento técnico, tático, físico e mental mais estruturado é algo reservado aos profissionais. O que o amador pode aprender com a preparação de um atleta de alto rendimento?

Acredito que um jogador, seja ele profissional ou amador, deve desenvolver-se de forma completa. A técnica é fundamental. A tática também. A preparação física é indispensável. E o trabalho mental faz parte desse processo da mesma maneira.

Uma boa técnica dá confiança ao jogador. Quando a técnica está consolidada, a mente fica mais livre para pensar na tática, tomar melhores decisões e interpretar o jogo com mais clareza. Por isso, acredito muito num treino integrado.

Os meus alunos também trabalham a parte emocional. Aprendem a lidar com a pressão, com os erros, com a confiança e com a tomada de decisões. E faço questão de dizer que esse tipo de trabalho não deve ser exclusivo dos atletas profissionais.

No fundo, todos os jogadores precisam construir os mesmos pilares: uma boa técnica, inteligência tática, preparação física, equilíbrio emocional e uma atitude constante de aprendizagem.

Os pilares do desenvolvimento não pertencem apenas ao alto rendimento. Eles pertencem a qualquer pessoa que queira evoluir.

Depois de mais de duas décadas na Espanha, como você enxerga o pádel brasileiro de hoje e onde acredita que o Brasil ainda precisa evoluir?

Quando cheguei à Espanha, eu era uma jogadora talentosa e fisicamente forte. Tinha uma boa base técnica e tática, era uma jogadora muito constante e também agressiva. Mas viver aqui e competir no circuito espanhol transformou-me profundamente.

A Espanha ensinou-me a ser muito mais estruturada, tanto como atleta quanto como pessoa. Aprendi a colocar a minha energia naquilo que realmente dependia de mim: a minha atitude, o meu trabalho diário, a minha preparação e a forma como respondia às dificuldades.

O talento continuava a ser importante, mas foi a maturidade emocional que me permitiu competir de forma muito mais consistente.

Quando olho para o Brasil, acredito que existe muito talento e um enorme potencial de crescimento. Talvez um dos grandes desafios seja justamente continuar desenvolvendo estruturas que permitam aos jogadores treinar e competir com maior regularidade e ter acesso a uma formação cada vez mais completa, não apenas técnica, mas também tática, física e mental.

A Espanha não mudou quem eu era. Potencializou aquilo que eu podia ser.

Acredito que o Brasil tem todas as condições para continuar crescendo. Existe talento. O grande desafio é criar cada vez mais caminhos e estruturas para que esse talento possa desenvolver todo o seu potencial.

Depois de uma vida dedicada ao pádel como jogadora, campeã mundial, treinadora e formadora, o que motiva você hoje dentro do esporte? E que legado gostaria de deixar?

Acredito que, no fundo, a minha verdadeira vocação é ensinar. Ter percorrido esse caminho permite-me compreender melhor aquilo que cada pessoa está vivendo. Não porque todas as histórias sejam iguais, mas porque eu própria passei por muitas das dificuldades, dúvidas e desafios que uma atleta enfrenta.

Foto: Acervo pessoal Neki Berwig

É claro que cada pessoa tem o seu próprio caminho, a sua personalidade e a sua forma de aprender. Não existe uma fórmula única. O que realmente me motiva não é apenas ensinar alguém a bater melhor na bola.

O que me apaixona é ajudar as pessoas a desenvolverem-se através do esporte.

Porque acredito que o esporte é uma das ferramentas mais poderosas de crescimento humano. Dentro da quadra aprendemos muito mais do que técnica ou tática. Aprendemos disciplina, humildade, responsabilidade, equilíbrio emocional, trabalho em equipe, superação e confiança.

O meu papel é ajudá-los a alcançar a melhor versão de si mesmos, qualquer que seja o caminho que escolherem. É isso que me dá sentido. Espero que o meu legado, como brasileira, seja também mostrar que os objetivos podem ser alcançados.

Acredito que a minha história pode inspirar outras meninas e outros atletas a acreditarem que a origem não define o destino. Com trabalho, disciplina e coragem, é possível chegar muito mais longe do que imaginamos.

O meu maior legado não é apenas ter sido número 1 do mundo. É poder mostrar que uma brasileira também podia chegar lá e, quem sabe, ter ajudado a abrir caminho para que muitas outras acreditem que também podem.


Maycon Henschel, da redação.


FCP será responsável pela gestão esportiva da Liga Brasileira de Pádel
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Redator e fundador do Portal Super Padel, o maior portal dedicado ao pádel no Brasil. Praticante de pádel há mais de três anos, me apaixonei pelo esporte e transformei essa paixão em profissão.
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