COBRAPA afirma que sabia desde maio que modalidade não seria indicada pelo COB, mas esclarecimento público só foi divulgado com o torneio em andamento
O Brasil não está entre os oito países que disputam o torneio de pádel dos Jogos Sul-Americanos Santa Fe 2026. A ausência chama atenção por acontecer justamente na primeira edição em que o pádel integra oficialmente o programa da competição e passa a disputar medalhas. A explicação da Confederação Brasileira de Pádel (COBRAPA), porém, só foi publicada na noite de 22 de setembro, com o torneio já em andamento.
A manifestação veio depois de o Super Padel procurar a COBRAPA, na manhã do mesmo dia, para questionar o motivo da ausência brasileira e informar que preparava uma matéria sobre o assunto. Horas depois, a entidade publicou em suas redes sociais uma nota intitulada “Por que o Brasil não participa do XIII Jogos Sul-Americanos Santa Fe 2026?”.
Segundo a publicação, a COBRAPA já havia tratado do assunto meses antes. A entidade afirma que, em 20 de maio, foi recebida pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB) para discutir a possibilidade de participação do pádel nos Jogos. De acordo com o relato apresentado agora pela confederação, naquela ocasião foi informada de que a delegação brasileira já havia esgotado as indicações de modalidades e atletas.
Ainda segundo a COBRAPA, o COB havia priorizado esportes olímpicos e modalidades ou atletas que precisavam alcançar índices visando aos próximos ciclos olímpicos. Por esse motivo, o pádel não teria sido indicado para integrar a delegação brasileira em Santa Fe. A decisão do COB aparece, portanto, na nota da COBRAPA como a explicação para a ausência brasileira. O ponto que chama atenção, entretanto, é o que foi comunicado publicamente pela própria confederação nos meses seguintes.
Pádel confirmado
Em 20 de maio, mesma data apontada pela COBRAPA como o dia da reunião com o COB, a entidade publicou em suas redes sociais uma arte com a frase “Pádel confirmado nos XIII Jogos Sul-Americanos Santa Fe 2026”. A publicação apresentava a participação do pádel nos Jogos como confirmada e informava as datas da competição. Não havia, naquela comunicação, uma ressalva pública sobre a possibilidade de o Brasil não integrar a delegação.
A documentação disponível não permite determinar a ordem dos acontecimentos naquele dia. Portanto, não é possível afirmar se a publicação ocorreu antes ou depois da reunião mencionada pela COBRAPA. O fato é que as duas informações estão associadas à mesma data: enquanto a comunicação pública anunciava o pádel nos Jogos, a própria confederação afirma agora que naquele dia recebeu do COB a informação de que a modalidade não seria indicada para a delegação brasileira.
Pouco mais de um mês depois, em 23 de junho, a COBRAPA publicou outra atualização sobre sua agenda institucional em Brasília. Entre os assuntos apresentados estavam o caminho olímpico do pádel, um programa nacional de desenvolvimento, a estruturação do alto rendimento e o projeto Brasil Padel 2032.
Também nessa comunicação não houve menção à ausência brasileira nos Jogos Sul-Americanos.
O que aconteceu entre maio e setembro?
É justamente nesse intervalo que está uma das principais questões levantadas pela situação.
O manual técnico dos Jogos estabelece que as inscrições das federações nacionais deveriam ser realizadas por meio dos respectivos Comitês Olímpicos Nacionais. Para o pádel, cada CON poderia inscrever uma dupla masculina e uma feminina, com limite de quatro atletas. O mesmo documento estabelecia 13 de agosto como prazo final para a inscrição nominal dos esportes individuais.
Isso significa que havia um intervalo de quase três meses entre a reunião mencionada pela COBRAPA, em 20 de maio, e o encerramento das inscrições nominais do pádel.
Segundo a própria COBRAPA, a entidade já sabia em maio que o pádel não havia sido indicado pelo COB. Mas a comunidade brasileira só recebeu uma explicação pública sobre a ausência em setembro, quando o torneio já estava em andamento.
Não é possível afirmar que uma eventual mobilização de atletas, clubes, dirigentes ou da comunidade teria alterado a decisão. Também não está claro, a partir da nota publicada pela COBRAPA, se houve posteriormente uma solicitação formal para reconsiderar a decisão ou alguma tentativa de inclusão da modalidade antes do encerramento das inscrições.
Sem uma comunicação pública sobre a ausência, as chances de qualquer discussão, questionamento ou mobilização da comunidade desapareceram quando o prazo de inscrição chegou ao fim.
A questão, portanto, não é apenas por que o Brasil não esteve em quadra em Santa Fe. É também por que a explicação sobre a ausência só foi apresentada meses depois de a própria COBRAPA afirmar que já conhecia a decisão.
Um contraste com 2022
A trajetória do pádel nos Jogos Sul-Americanos ajuda a dimensionar o momento.
Em Assunção 2022, o pádel participou do evento pela primeira vez, como modalidade exibição. O Brasil esteve presente e conquistou duas medalhas, com prata no masculino e bronze no feminino.
Santa Fe 2026 representa uma situação diferente. Pela primeira vez, o pádel integra oficialmente o programa dos Jogos Sul-Americanos e as disputas valem medalhas para o quadro da competição. A FIP classificou a inclusão como um marco para a modalidade, enquanto a organização de Santa Fe também destaca 2026 como a estreia histórica do pádel no programa oficial.
O torneio reúne 16 duplas, sendo oito masculinas e oito femininas, representando oito países. Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela estão na disputa. O Brasil, que havia participado da primeira experiência do pádel nos Jogos em 2022, não está entre eles.
A diferença de contexto torna a ausência brasileira ainda mais relevante: o país participou quando o pádel apareceu pela primeira vez nos Jogos, ainda em caráter de exibição, mas ficou fora justamente quando a modalidade passou a integrar oficialmente o programa.
Procuramos o COB
Após a divulgação da nota da COBRAPA, o Super Padel procurou o Comitê Olímpico do Brasil para ouvir a posição da entidade sobre o processo de composição da delegação brasileira.
O e-mail enviado busca esclarecer, entre outros pontos, se houve uma solicitação formal da COBRAPA para a inclusão do pádel, se houve possibilidade de reconsideração após a reunião de maio e quais critérios foram considerados na composição da delegação.
O contato foi realizado enquanto esta reportagem era preparada. Caso o COB envie esclarecimentos, a matéria será atualizada posteriormente com as informações da entidade.
A resposta é relevante não apenas para entender por que o Brasil não esteve em Santa Fe, mas também para compreender como decisões que afetam a participação internacional do pádel brasileiro são comunicadas aos atletas, clubes e à comunidade.
Maycon Henschel, da redação.
