Durante o Master Finals do Brasil Padel Tour, o Super Padel soube em primeira mão que Lucas Cunha encerraria sua trajetória no circuito profissional logo após o torneio. Procuramos o atleta ainda naquela semana, e a resposta afirmativa ao convite de entrevista veio com um pedido compreensível: que a entrevista fosse feita na sequência do anúncio, para que ele pudesse se concentrar exclusivamente no torneio em disputa.
O pedido foi respeitado.
O anúncio veio.
E logo depois, a vida seguiu em ritmo intenso: casamento, lua de mel, mudanças de rotina e festas de fim de ano. As respostas chegaram agora, com o tempo que o momento pedia. E talvez por isso, chegam mais profundas, mais definitivas e mais humanas.

O que você lê a partir daqui não é uma reação ao fim de uma carreira. É o relato de alguém que fechou um capítulo inteiro da própria vida.
Tricampeão número 1 do Brasil no Brasil Padel Tour, multicampeão de base, atleta de Seleção e nome presente em diferentes fases do pádel nacional, Lucas Cunha encerra a carreira competitiva com a convicção de quem sabe exatamente por que está virando a página.
Das quadras de Porto Alegre à Seleção Brasileira

O primeiro contato de Lucas com o pádel aconteceu ainda na infância, em Porto Alegre, de forma quase casual. Ex-jogador de tênis, ele migrou para o pádel acompanhando o pai, que se tornaria sua principal referência esportiva. Desde cedo, a relação com o esporte esteve ligada a valores como disciplina, respeito, rotina e convivência.
“Foi ali que eu me formei como pessoa e como atleta. A base me ensinou disciplina, respeito, responsabilidade e a forma correta de conviver dentro e fora de quadra. Os títulos foram importantes, mas o que ficou foi o alicerce.”
A passagem pelas categorias de base da Seleção Brasileira trouxe títulos Pan-Americanos e Mundiais, mas, sobretudo, construiu laços, hábitos e uma mentalidade que o acompanhariam por toda a carreira.
Uma geração que cresceu junto

Treinos coletivos, viagens longas de ônibus, concentrações, intercâmbios na Argentina e na Espanha, convivência diária com atletas que mais tarde se tornariam referências do pádel brasileiro. A geração de Lucas cresceu junta dentro do esporte.
Para ele, essa fase ensinou algo essencial: a base não é garantia de futuro, mas é o que prepara o atleta para lidar com derrotas, frustrações e responsabilidades.
“O mais importante daquela época foi aprender a lidar com pessoas, respeitar o professor, os companheiros, entender o processo e não achar que um título de base garante uma carreira. Isso me preparou para a vida.”
A Espanha e a maturidade profissional

Aos 19 anos, Lucas tomou uma das decisões mais marcantes da sua vida ao mudar-se para a Espanha. Sem grande planejamento e com pouco tempo de preparação, embarcou em busca de uma oportunidade real no cenário internacional.
Foram dez anos entre Madrid e Bilbao, convivendo com alguns dos melhores jogadores e treinadores do mundo, disputando o Pro Padel Tour e o World Padel Tour e, principalmente, aprendendo a viver do pádel.
“Ali eu amadureci como jogador e como pessoa. Aprendi a saber estar, a respeitar o ambiente, a construir credibilidade e a sobreviver no mercado. Isso moldou tudo o que eu sou hoje.”
Mais do que a técnica, a vivência europeia ensinou sobre adaptação, convivência, responsabilidade e construção de imagem profissional.
O retorno ao Brasil e o nascimento de uma nova missão

Em 2021, Lucas retornou definitivamente ao Brasil. O desejo de estar mais próximo da família e o crescimento do pádel nacional o levaram a iniciar uma nova fase.
Foi nesse contexto que surgiu sua entrada na Flores Padel, projeto voltado à formação de professores, capacitação técnica e desenvolvimento de metodologias de ensino. A partir daí, Lucas passou a atuar também como formador e empreendedor.
A formação de professores passou a ser um dos pilares da sua atuação, entendendo o professor como peça central no crescimento sustentável dos clubes e da modalidade.
O ciclo de ouro no BPT
De volta às competições, Lucas retomou a carreira em alto nível. Primeiro no A1 Padel, depois no Brasil Padel Tour, onde viveu o período mais consistente da sua trajetória no Brasil.
Ao lado de Matheus Simonato, encerrou três temporadas consecutivas como número 1 do ranking do BPT, em 2023, 2024 e 2025.
“A constância e a forma de enxergar o jogo foram decisivas. Ninguém erra de propósito. Sempre buscamos resolver os problemas juntos, estudar o jogo e nos adaptar às mudanças.”

A decisão que encerra um ciclo
Apesar dos resultados, os últimos meses trouxeram reflexões mais profundas. Uma lesão no cotovelo acompanhou parte da temporada, mas não foi o fator determinante.
O que pesou foi o momento de vida.
“Eu comecei a sentir que já não desfrutava da rotina competitiva como antes. Minha cabeça estava cada vez mais voltada a novos projetos. Não quis esperar parar por não conseguir mais ser competitivo. Preferi encerrar agora, com clareza, cabeça tranquila e coração em paz.”
Lucas confirma que a decisão é definitiva no que diz respeito à carreira competitiva profissional. Não se trata de uma pausa.
O que vem agora
Se as competições ficam para trás, o pádel segue no centro da sua vida. Lucas inicia uma fase focada em clínicas, cursos presenciais e online, formação de professores, projetos em clubes, desenvolvimento de marcas e produção de conteúdo.
Estão previstos novos formatos de clínicas, ampliação dos cursos da Flores Padel, fortalecimento de marcas próprias, participação em projetos de clubes e o retorno do seu podcast.
“Agora eu quero colocar 100% da minha energia nisso. Fazer tudo por inteiro, como sempre fiz.”
O legado
Ao olhar para trás, Lucas valoriza menos os números e mais a forma como construiu sua trajetória.
“O que mais me orgulha é ter respeitado o esporte, as pessoas e o processo. Construí uma carreira com valores.”
Ele encerra o ciclo competitivo com a sensação de dever cumprido, novas ideias em andamento e a convicção de que seguirá contribuindo com o pádel brasileiro, agora de outras maneiras.
Com a cabeça tranquila.
E o coração em paz.
Quer ler com detalhes o bate papo do Super Padel com Lucas Cunha? Clique aqui e confira a entrevista na íntegra.
Maycon Henschel, para o Super Padel.
